sábado, 10 de outubro de 2009

Cerimônias de Adeus


Há muito tempo que não saio tão convicta de ter encontrado um bom filme como o japonês “A Partida” (direção Yojiro Takita, 2008, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009). Um violoncelista fracassado decide voltar à cidade de origem, onde termina trabalhando em ritos funerários. É um trabalho socialmente mal visto, sente-se envergonhado, mas ao mesmo tempo vai encantando-se com ele. O jovem homem em questão vai aprendendo seu ofício com seu chefe, um mestre severo e bem humorado, que encara com muita seriedade o trabalho de lavar e vestir os cadáveres em presença dos familiares.




A sociedade japonesa nos fascina pelos seus rituais. Os ritos organizam uma sociedade, a escansão do cotidiano, quando muito rígidos nos escravizam, mas são muito úteis nos momentos traumáticos da vida, por isso são tão efetivos na morte. Neste caso, trata-se dos procedimentos de preparo do corpo antes de ser colocado no caixão. As cerimônias fúnebres retratadas no filme são pequenas crônicas da dor e nelas, junto com o aprendiz, vamos nos familiarizando com a morte, deixamos de vê-la como um tabu a ser evitado, aceitamos compreender-lhe as sutilezas.



Dizem que os profissionais que lidam com a dor dos homens se endurecem, discordo. Trabalhar lá onde está o sofrimento não nos torna imunes, apenas nos ensina que ele é muito mais complexo do que parece visto de fora . Ficar alheio aos assuntos indigestos, difíceis de encarar, é para quem pode e quer. Quem busca um ofício que exige aproximar-se do que outros evitam é porque não consegue ignorar certa dimensão do sofrimento humano, neste caso, a existência de um cadáver, a morte. Nosso trabalho nos revela.



Enquanto aprende o ofício, o jovem agente funerário do filme vai elaborando a morte da mãe, a cujo enterro não pode comparecer, e o desaparecimento do pai, que foi embora quando ele tinha seis anos e nunca mais voltou. Como se vê, um determinado ofício nos fisga já que nele temos mais tarefas a desempenhar do que o trabalho em si que estamos realizando. Isso é a descoberta de uma vocação, um trabalho que trabalha em nós aquilo que precisa ser encenado, vivido, elaborado. Devíamos lembrar-nos disso ao escolher uma profissão, um emprego.



Em muitos enterros do filme, os vivos agradecem aos mortos. É um hábito que não temos, mas que nos faria muito bem poder recorrer a ele. A troca de gentilezas na sociedade japonesa é fundamental: presentes devem ser retribuídos à altura, gestos e palavras idem, isso é para eles um ciclo de obrigações sem fim, mas também os deixa com menos pendências. Seria bom poder agradecer aos mortos o afeto e os favores recebidos. Em geral, nada dizemos, por falta de costume, e para sempre nos sentimos culpados de ingratidão.

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