sábado, 3 de outubro de 2009

Bispo do Rosario

A exposição, com obras de Arthur Bispo do Rosário, Raimundo Camilo, José Rufino e da paranaense Efigênia Rolim, convida o público a entrar em um labirinto. Lúdico, o labirinto é tomado por obras construídas com quilômetros de fios, quilos de tecido e papelão, dezenas de retratos, de lápis de cor e de notas de um dinheiro que passou pela transformação da arte. Esse é o cenário da exposição Museu Bispo do Rosário + 3, aberta no último dia 12.



A mostra é uma prévia da exposição de Bispo do Rosário que será aberta, em setembro, em Paris. Também estará sendo apresentada em Paris a exposição Imagens do Inconsciente, aberta no Museu Oscar Niemeyer (MON) no último dia 22 de fevereiro, que da mesma forma faz em Curitiba a prévia da mostra a ser vista pelos franceses. No mesmo período, serão apresentadas as obras de Camilo e Rufino em Lousane, na Suíça.



Procedente do Museu Bispo do Rosário (RJ), a exposição é composta por 270 obras do artista Bispo do Rosário, 43 obras de José Rufino, ambos já falecidos, e 60 obras de Raimundo Camilo. Em destaque, há nove peças da paranaense Efigênia Rolim, no saguão de entrada da sala de obras de Rufino e Camilo.As obras dos dois artistas estão sendo apresentadas pela primeira vez ao público.



O cenário projetado pelo curador Ricardo Aquino pretende reproduzir a idéia de organização que o próprio Bispo do Rosário gostava de utilizar em seu "ateliê", um quarto da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio.



Os responsáveis pelo Museu Bispo do Rosário não concordam com a idéia de utilizar conceitos específicos para classificar a arte feita por pacientes psiquiátricos. "Nossa luta é pela afirmação dessa produção como arte." Ele considera as classificações -virgem, bruta, outside, folkart, etc- uma forma de colocar essas produções como uma "arte menor." Para o curador, essa é uma atitude de exclusão daqueles que em essência são reconhecidamente artistas.



"Classificamos as obras deles dentro dos próprios movimentos artísticos correntes. Prescindimos da obrigação de utilizar a arte como terapia ocupacional para a análise do inconsciente. Se a obra tem valor estético e artístico é arte, não importa quem a fez e em que condições", explica Aquino.



Três diferentes




O ambiente manicomial é o único laço entre os três artistas, já que cada um construiu uma obra marcada por características próprias e autênticas. Arthur Bispo do Rosário fez da agulha e linha seu pincel. Seu mundo foi construído pelas laçadas de seus bordados, alguns ricamente rebuscados. Neles, o artista deixou as pegadas dos caminhos percorridos antes e durante a permanência em instituições psiquiátricas. Assim construiu uma obra que merece destaque à parte.



Notas e Sonhos é o título do segmento que apresentará a cobiçada coleção de notas de Raimundo Camilo. "Ele é um artista conceitual. A intervenção que Camilo faz na moeda corrente é semelhante aos trabalhos de Valtércio Caldas, Cildo Meireles e Nelson Leirner, que também se utilizam desse tema na composição de suas obras", compara o curador Ricardo Aquino. O artista está internado há 46 anos na instituição psiquiátrica carioca.



Segundo o curador, a obra de Rufino, também considerado um artista contemporâneo, encontra paralelos nos movimentos da Pop Art e na Nova Figuração Brasileira. "A pintura dele é muito colorida e tem um toque das histórias em quadrinhos. É uma série de retratos que, em essência, são auto-retratos do próprio autor, é o inconsciente de Rufino pintado em tela." Visões Paralelas é o título do segmento que estará apresentando as obras de Rufino. O artista permaneceu 52 anos internado e faleceu no último dia 5 de março.



Chamada de Rainha do Papel, Efigênia Rolim é conhecida pelas criações a partir do papel de bala. Defensora das causas do meio ambiente, seus personagens -bonecas, girafas, pássaros e outros habitantes das florestas- ganham histórias na fantasia da artista. São histórias cantadas ou contadas por Efigênia. "Sou ligada com o espírito do universo. Tem um montão de histórias que o homem não consegue pegar, não consegue trazer do invisível para o visível."



Nos 14 anos em que diz trabalhar na confecção de suas obras, Efigênia disse que não deixou de perseverar, apesar de nunca ter exposto antes em um museu. "Trabalhamos (ela e o neto de 14 anos) até às 2h da madrugada para preparar as peças para esta exposição. Eu estou achando uma honra expor neste grande Museu", disse ela. Além do papel de bala, Efigênia utiliza diversos materiais recicláveis, em harmonia com as obras da exposição.






Arthur Bispo do Rosario

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