
A revolução é magnifica... Tudo o mais é um disparate.
Carta de Rosa Luxemburgo a Emmanuel e Matilde Wurm (18/Julho1906)
O socialismo não é, propriamente, um problema de comer com faca e garfo, mas um movimento de cultura, uma grande e poderosa concepção do mundo.
Carta de Rosa Luxemburgo a Franz Mehring (Fevereiro/1916)
REVOLUÇÃO DE CORPO E ALMA
A sua energia impetuosa e sempre no ar aguilhoava os que estavam cansados e abatidos, a sua intrépida audácia e a sua entrega faziam corar os timoratos e medrosos. O espírito atrevido, o coração ardente e a firme vontade da "pequena" Rosa era o motor da rebelião. Clara Zetkin
Que difícil deve ter sido no seu tempo participar na política, sendo mulher e actriz! No entanto, violentando a mediocridade patriarcal da sua época, Rosa Luxemburgo converteu-se numa das principais dirigentes e teóricas do socialismo... a nível mundial! Não só combateu o machismo da sociedade capitalista, mas também questionou as hierarquias e relações de poder – de género, de idade, de nacionalidade – que impregnavam e manchavam o socialismo europeu daqueles anos. Jamais aceitou cair na armadilha da direcção do SPD (Partido Social-Democrata Alemão), quando lhe sugeriu que se ocupasse, exclusivamente, dos problemas da mulher, deixando "a grande política" nas mãos da velha hierarquia parlamentar. Pensavam assim tirá-la da frente. Ela não caiu no anzol.
Como o relatam várias biografias e aquele memorável filme de Margarethe von Trotta, protagonizada pela bela actriz Barbara Sukowa que a representa, já de muito jovem Rosa envolveu-se totalmente no Partido Social-Democrata Alemão. Corria em desvantagem. Era judia e polaca (duas palavras malditas para a cultura alemã...). Não só publicou artigos e livros na imprensa do SPD, como foi uma das principais instrutoras das escolas políticas do partido (principalmente de temas económicos).
Logo de início, entrou em colisão com os principais ideólogos desta organização: Eduard Bernstein [1850-1932], principal vulto do "socialismo revisionista", e mais tarde Karl Johann Kautsky [1854-1938], líder do chamado "marxismo ortodoxo". Com argumentos diversos, os dois opunham-se às mudanças sociais radicais e revolucionárias. Tal como Lenine, Rosa polemiza com ambos. Primeiro entrará em choque com Bernstein, em 1898, e depois com Kautsky, em 1910.
Mas ela não estava só. Enquanto polemizava com os chefes da burocracia parlamentar do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) e os seus principais ideólogos, travava estreita amizade com Franz Mehring [1846-1919], o célebre biógrafo de Karl Marx, e Clara Zetkin [1846-1919], seus grandes companheiros de luta.
Quando em 1905 ocorreu a primeira revolução russa, ela tentou extrair todas as consequências teóricas para o mundo ocidental. Que relação há entre os movimentos sociais de contestação e as organizações revolucionárias? Um debate que, ainda hoje, quando se cumpre um século daquela revolução continua aberto e latente.
Mais tarde, Rosa saudou a revolução bolchevique de 1917 de maneira entusiasta. Ali via realizado o grande sonho de libertação dos oprimidos. Mas a sua defesa dos bolcheviques não foi acrítica. Enquanto apoiava, polemizou com Lenine. Fê-lo antes e depois do triunfo revolucionário. Este último, em Fevereiro de 1922, chegou a dizer dela que "pode acontecer que as águias voem mais baixo que as galinhas, mas uma galinha jamais pode voar tão alto como uma águia. Rosa Luxemburgo enganou-se (...) mas apesar dos seus erros, foi – e para nós continua sendo – uma águia (...) no pátio detrás do movimento operário, entre os montes de esterco, as galinhas tipo Paul Levi, Scheidemann e Kautsky cacarejam à volta dos erros da grande comunista. Cada um faz o que pode".
A vida de Rosa foi apaixonante. Rompeu com os moldes trilhados. Nunca aceitou baixar a cabeça. Revoltou-se e, confiando na sua própria personalidade, entregou o melhor da sua energia à nobre causa da revolução mundial, a causa da classe trabalhadora, dos explorados e oprimidos do mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário