domingo, 20 de setembro de 2009

Nise e os Gatos


Quando Nise da Silveira criou a Seção de Terapeutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio, em 1946, os maiores avanços da psiquiatria mundial eram a lobotomia e o eletrochoque. A lobotomia é um primor de violência: uma cirurgia onde se mutila o cérebro de uma pessoa, transformando-a pra sempre num vegetal. O eletrochoque não fica atrás: ser amarrado em uma cama de hospital e levar choques é humilhação e tortura. Quem viu os filmes "Um Estranho no Ninho", de Milos Forman, ou "Bicho de Sete Cabeças", de Laís Bodansky, com Jack Nicholson [ninho] e Rodrigo Santoro [bicho], sabe do que se trata [e se não sabe deveria saber].

A doutora Nise, baixinha, magrinha e valente, comprou a briga com a direção do hospital e se recusou a usar os tais "métodos tradicionais". Desenvolveu um método próprio de tratar a esquizofrenia. Ofereceu aos infelizes esquecidos em jaulas uma vida nova onde eram tratados com afeto e podiam criar e expressar o que sentiam. No lugar da violência, a criatividade: pincéis, tinta, telas, cerâmica. Nise lia nas pinturas e esculturas de seus pacientes [que preferia chamar de amigos] o que eles não conseguiam expressar numa linguagem articulada. Seguiu o conselho de Jung, seu mestre: estudou mitologia e alquimia para compreender a linguagem do inconsciente e o universo em que viviam os esquizofrênicos.

Em 46 anos de trabalho mandou a maior parte deles de volta pra casa, curados. Cães e gatos, chamados pela Dra. Nise de "co-terapeutas", faziam companhia a pessoas antes trancadas em si mesmas e que pouco a pouco tornavam a olhar o mundo lá fora. É que o amor silencioso dos bichos ABRE PORTAS.

Um dia antes da entrevista marcada, eu a conheci na Casa das Palmeiras. Velhinha, na cadeira de rodas, mas completamente lúcida. Aliás, tinha a rapidez de pensamento que muito jovem não tem. E uma inteligência e cultura ímpares. Muito bem. Sinceramente emocionado (eu já me interessava pelo trabalho dela havia muitos anos), eu me apresentei. Me olhando bem firme nos olhos, ela se limitou a dizer: "não gosto de jornalistas". Meu mundo caiu, né?
Fiquei prevendo que a entrevista do dia seguinte seria difícil, para não dizer catastrófica. No dia seguinte, lá estava eu na casa dela.

Como eu previra, a entrevista começou reticente. As respostas eram secas, beirando a má vontade. Eu já estava me dando por vencido, quando o gato dela, chamado Carlinhos (em homenagem ao Carl Jung), entrou na biblioteca, pulou na escrivaninha em volta da qual conversávamos, e da escrivanhinha, no meu colo. A doutora Nise olhou-me surpresa. E me disse: "agora vou te dar a entrevista que você quer. Agora eu sei que você é uma pessoa na qual posso confiar." Você pode imaginar como me senti, não é? Só espero que você tenha gostado da história.


Nise da Silveira fundou o Museu do Inconsciente, centro de estudos de psiquiatria de repercussão mundial, com um acervo de perto de 300 mil obras. Fundou a Casa das Palmeiras, uma clínica de transição entre o hospital e o mundo exterior que prepara o paciente para voltar à vida na sociedade sem traumas.

Escreveu 6 livros, e o último deles foi dedicado aos gatos. Revolucionou a psiquiatria com sua nova abordagem do tratamento da esquizofrenia e nunca se filiou a nenhuma instituição psiquiátrica. Dizia que é melhor ser um lobo magro e solto a um cachorro gordo na coleira

Fonte dessa postagemhttp://www.sosgatinhos.com.br/livro/nise2.htm

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